EX-MADAME 03

CAPÍTULO 03

Rumo à Política

Kátia estava em frente a mansão, agarrada ao portão:
-Como é difícil dar adeus à três salas, sete suítes, um salão de festas, uma cozinha enorme, uma sala de jantar, um escritório, um lavabo e um quintal imenso!
-Kátia, vamos embora. Os novos donos da mansão estão chegando! - disse Samantha.
-Cale-se criada. Será que não posso me despedir da minha ex-casa?
Eva e Inácio, um casal de idosos, foram ao encontro da ex-madame. O homem pegou em seu ombro e disse:
-Eu entendo a sua dor!
-Mentira! Nunca entenderá o que é dar adeus a uma mansão como esta. Não vai ser fácil passar por esta rua e ver que essa mansão não é mais minha!
Eva falou:
-Não se preocupe, mandaremos demolir essa casa e construiremos uma bem mais bonita e moderna.
Kátia se irritou e quase agrediu a velha, dizendo:
-Se demolir essa casa eu mando demolir a sua cara!
Samantha puxou a prima e as duas foram embora. Oliver as esperava em frente ao condomínio onde iam morar. Quando as mulheres chegaram:
-Os apartamentos desse condomínio têm cara que são desconfortáveis! - disse Kátia.
-Também acho. - concluiu Samantha.
-Você não deve achar nada. Esqueceu que você morava numa casa de taipa, sem energia elétrica nem água encanada. Andava quilômetros para ir buscar água em um posso onde todos faziam xixi, inclusive eu.
-Também não exagera prima. Ah, acho que suas coisas não caberão no apartamento. Você tem muitas bagagens, móveis e quadros, e se não couber, terá que se desfazer de algumas!
-Eu vou me desfazer é de você se tentar encostar essas patas nas minhas malas. Já que não está fazendo nada, leve minhas bagagens para o apê, inútil.
-Eita que a escrava aqui sofre! - reclamou Samantha.
-Você não viu nada. Espera só eu te amarrar no tronco e te chicotear!
Samantha levou as bagagens. Ao entrarem no apartamento, Oliver disse:
-Mademoiselle, seja forte!
-Só se for pra te esbofetear. Não vou aguentar morar nessa miniatura de casa. Eu sou muito espaçosa.
-Está espaçosa porque está gorda né prima! - disse Samantha, rindo.
-Você verá a gorda fazendo pirraça se não calar essa boca.
Kátia virou os olhos e foi para o quarto. Oliver pegou pregos e martelo para pregar seus quadros de homens despidos no quarto. O barulho foi tão forte, que a vizinha do lado foi reclamar. Ela bateu na porta e Samantha abriu:
-Bom dia! Meu nome é Isolda, sou a moradora do apartamento 36 e gostaria de falar com proprietária deste apartamento. Por acaso é você?
-Imagina, eu não sou proprietária nem nas minhas calcinhas. – Respondeu Samantha.
-E onde está a proprietária?
-Está ocupadíssima. Comeu um pastel que não a fez bem e está no banheiro tem mais de meia hora. Quer deixar recado?
-Diga que o barulho que estão fazendo está incomodando os vizinhos e que se não pararem irei reclamar com o síndico.
Samantha fechou a porta na cara da mulher e comunicou a Oliver sobre o barulho. O rapaz disse:
-Sinto muito por ela, mas ainda faltam oito quadros.
-E o que é isso, exposição de fotografias pornográficas?
-Não, Salamandra. São fotos de rapazes bonitos. Isso me dá ânimo nas horas difíceis.
-E quais são suas horas difíceis? Quando quebra uma unha ou quando é abandonado pelo bofe?
-Tanto faz, projeto de gente. Salamandra você é muito amargurada, isso é falta de alguma coisa.
-Eu sei, é falta de homem. Dos quatro que já namorei, o primeiro me abandonou, o segundo morreu, o terceiro tinha halitose e o quarto era gay.
Alguns minutos depois, a vizinha foi novamente reclamar. Samantha abriu a porta:
-Você de novo? – perguntou a moça.
-Isso mesmo, e o barulho continua. Você está achando que eu sou uma palhaça?
-Estou, mas eu não quero debater isso com você. Tenho problemas demais e não posso perder tempo.
-Exijo que parem essa barulheira ou irei reclamar com o síndico!
Samantha fechou a porta na cara da mulher, de novo. Kátia recebeu um convite para ir jantar na casa de Margareth Pimentel, esposa do governador:
-Oliver, tenho novidades. Fui convidada a um jantar na casa do governador. A gaga, esposa dele, me convidou.
-Que bom mademoiselle, vai me levar? Posso me montar com aquele vestido verde brilhoso e uma peruca ruiva, de cabelo natural.
-Claro que não, biba. É um encontro de madames, não uma parada gay. Além do mais, pretendo entrar na política.
Alguém novamente bateu na porta e Samantha, irritada, pegou um balde com água. Ela então abriu a porta e molhou o síndico do condomínio:
-Você está louca? - perguntou o síndico, todo ensopado.
-Me desculpe, achei que era a vizinha chata do apartamento ao lado.
-Sei, a Isolda. Ela reclamou do barulho que vinha deste apartamento. Me falou que havia barulho de tambores, animais sendo sacrificados e tiroteios.
-Caramba, como ela mente. Vou chamar a patroa.
Samantha chamou Kátia. Esta foi falar com o síndico:
-O que deseja? - Perguntou ela.
-Desejo que parem de fazer baderna aqui!
Kátia gargalhou e perguntou:
-Você sabe com quem está falando?
-Com uma mulher falida que veio morar neste condomínio porque teve a mansão hipotecada. Acertei?
Kátia fez cara de reprovação e disse:
-Alterou algumas partes. Não estou falida e minha casa não foi hipotecada. Estou apenas passando uma tempestade aqui.
-Eu chamo isso de dilúvio. Você era milionária e perdeu tudo. Tenta manter uma pose de rica, sendo que dinheiro é uma coisa rara na sua bolsa. – Disse o homem.
A mulher ficou irritada e fechou a porta na cara do síndico. Oliver continuou a pregar os quadros na parede, quando Kátia entrou no quarto dele e ordenou:
-Oliver, pare de fazer esse barulho senão você vai ver onde vou enfiar esse martelo.
-Perdão Mademoiselle, não sabia que estava incomodando tanto.
À noite, Kátia se arrumou para ir ao jantar da mulher do governador. Ela colocou um de seus vestidos, maquiou-se, pegou uma bolsa e saiu. Pegou um ônibus coletivo e foi fotografada por um paparazzo.
Ao chegar à mansão de Margareth, foi recebida por Frank, seu ex-mordomo de Roma e atual de Margareth:
-Frank, o que faz aqui? – perguntou Kátia.
-Madame, vim para São Paulo à sua procura, daí arrumei esse emprego e agora estou apaixonado pela dona Margareth.
-Nossa, você se apaixona por todas as suas patroas?
-É uma tara que tenho, madame. Bom, fique à vontade.
Margareth foi cumprimentar a ex-madame:
-Que-que-querida, se-ja-ja bem vinda-da! – disse Margareth, a gaga.
-Obrigada querida!
-É um pra-prazer rece-ce-be-be-la em mi-minha ca-ca-sa. Espe-pero que goste-te do cardá-dá-pio.
-E o que será o jantar querida?
-Baiacu-cu-cu-cu....
-Chega querida! A última sílaba dessa palavra não pega bem.
Kátia cumprimentou a todos, de repente, quão grande foi seu susto ao ver Louise, sua amiga da França:
-Kátia, finalmente você chegou, só faltava você! – Disse Louise, sorrindo.
-Louise, que surpresa você aqui no Brasil.
-Imagina. Não tive mais notícias suas desde que você faliu.
-Eu não fali, apenas dei um tempo nesse negócio de luxo. Coisa temporária.
-Faliu sim, não tem um tostão no bolso.
-E o que você tem a ver com isso? Logo você que vive mal, ao lado de um conde porco e que a agride. Lembro-me do dia em que ele te esmurrou e te chutou e a sua desculpa foi que tinha sido atropelada por um caminhão.
Louise a puxou até o jardim e revelou:
-Não sei se você sabe, mas eu tentei matá-la. Lembra da bomba naquela casa cuja chave estava debaixo da arquibancada de uma quadra esportiva?
Kátia lembrou e perguntou:
-Foi você?
-Sim!
-Por que fez aquilo?
-Porque eu descobri que você foi amante do meu marido durante um bom tempo. Teve um dia que encontrei uma calcinha vermelha no bolso dele. Ele confessou que era sua, e eu já havia percebido pelo mal cheiro.
-Nossa, mas ele disse por livre e espontânea vontade?
-Não. Falou por livre e espontânea pressão. Peguei o ferro de passar roupas, bem quente, e ameacei engomar a cara dele se ele não me dissesse a verdade.
-Você era frígida. O conde era um homem viril, claro, antes da trombose. Nos divertimos muito. Lembro-me do dia em que ele pegou minha calcinha com a boca e falou: quando eu chegar em casa vou beijar a Louise para que ela sinta o gostinho do que é bom.
-Você é baixa!
-Me diga, como fez pra colocar a bomba naquela casa?
-Simples. Mandei meus comparsas atraí-la. Você contratou algumas diaristas para limparem a mansão, quando chegou ao Brasil. Eu as paguei para que deixassem meus comparsas entrarem. Eles colocaram o baú com um mapa dentro, na parede de um quarto e depois cimentaram.
-E a tia Carmem encontrou!
-Isso mesmo. Eu pretendia fazer você ser pega em flagrante numa casa abandonada com uma grande quantidade de drogas guardadas nela. Porém, a sua prima, aquela idiota, quis passar a perna em você e foi sozinha, sendo presa logo em seguida.
-Estou perplexa! - disse Kátia.
-Eu acompanhei tudo de longe. Após a polícia sair, mandei um dos meus capangas deixar um envelope com outro mapa dentro, na tal casa, pois eu sabia que você ainda iria lá. No outro mapa você deveria ir à farmácia que ficava pertinho, porém, a Carmem quis dar uma de esperta e foi antes, sendo eletrocutada. Ela achava que havia um tesouro atrás do espelho do banheiro da farmácia, mas era apenas um baú vazio.
-Você é uma bandida da pior espécie, e eu a recebi em minha casa na França, tantas vezes. Se eu soubesse teria colocado purgante no seu café.
-Calada, ainda não acabei. Um comparsa colocou um envelope no balcão da farmácia, por sorte você, curiosa, o abriu e viu um novo p mapa. A intenção era atraí-la à igreja. Lá havia um buraco, no subterrâneo, só lhe esperando para você cair e morrer lá. Porém, aquela bicha, o Oliver, foi mais rápida e foi sozinha, caindo no buraco logo em seguida.
-Pensando bem, ele mereceu.
-Já mandei fechar o bico. Bom, por último, aluguei uma casa e ordenei que meus comparsas enterrassem uma bomba, cronometrando tempo o suficiente para que você não a encontrasse e assim, morreria. Você foi atraída pelo mapa que estava na quadra esportiva. Infelizmente os panacas colocaram uma planta de plástico e certamente chamou sua atenção. Você fugiu, e mais uma vez meu plano foi por água abaixo.
-Louise, só não consigo entender, como deixou fios soltos atrás do espelho da farmácia e como abriu um buraco no subterrâneo da igreja.
-Querida, as casas, da droga e da bomba, foram alugadas por mim, para que eu executasse o plano. A farmácia era de mentira, e a igreja, bom, estava em reforma, e quando o Oliver caiu, um dos meus capangas já estava pronto para cimentar o buraco.
Oliver e Samantha entraram na mansão de Margareth e foram barrados, mas Carmem os viu e liberou a entrada deles:
-Perua, você sumiu! - disse Oliver.
Carmem falou:
-Fugi com o filho do governador. Daí fui presa, depois saí da cadeia e vim direto pra cá. Estou noiva.
-E quantos anos tem ele?
-Vai completar dezoito amanhã!
Samantha e Oliver viraram os olhos. Kátia enfrentou Louise:
-Eu deveria te bater até você ficar desacordada!
-Não será necessário. Uma bomba vai explodir em menos de trinta segundos, e você e toda essa gentalha morrerão.
-Nossa, você é uma terrorista não é mesmo?
Louise tentou fugir, mas Kátia a empurrou e a esbofeteou. Louise, por sua vez, também bateu em Kátia e as duas caíram no chão. Os convidados ouviram a briga e quando foram ver, presenciaram as duas madames se agredindo. Elas foram apartadas, porém, as paredes começaram a tremer. Todos ficaram desesperados, e a bomba explodiu: "buuuummm."
A mansão desabou e todos ficaram soterrados nos escombros. 
Kátia abriu os olhos, levantou e viu que estava numa relva. Era um lugar desconhecido, com uma grama que não tinha fim, haviam poucas árvores e ela não viu mais ninguém:
-OLIVER, CRIADA, LOUISE, ONDE VOCÊS ESTÃO? – Chamou Kátia, mas ninguém apareceu ou respondeu.
Ela andou, andou e andou, e resmungou:
-Era só o que me faltava, ser trazida pra esse lugar e ser abandonada feito um animal sem dono. Eu sou uma dama, não uma mulherzinha qualquer.
De repente, Oliver surgiu e disse:
-Mademoiselle, que bom que a encontrei!
-Oliver, você caiu do céu?
-Não sei madame, eu simplesmente abri os olhos e vi que estava nesse local.
Samantha surgiu no local e Oliver a chamou:
-Salamandra, você surgiu de repente, como fez isso, és uma bruxa?
-Se eu fosse uma bruxa, eu estaria rica e vocês seriam meus escravos!
Neste momento surgiram ali Louise, Carmem e Margareth. Carmem falou:
-Gente, estou perplexa!
-Com o quê titia? – perguntou Kátia.
-Neném, eu larguei a bebida, mas não lembro onde. E que lugar é esse? Não tem nem um bar pra gente comprar uma cerveja.
Neste momento surgiu ali um grande portão e São Pedro desceu das alturas e disse, olhando para um papel:
-Está tudo errado. Vocês não deveriam estar aqui.
-Eu po-po-posso fa-fazer uma pe-pergunta-ta? - perguntou Margareth.
-Não. Você gagueja muito e não temos tempo a perder. Vocês morreram na hora errada. – Disse o santo.
-Eu morri? Mas nem parece, estou me sentindo ótima! – Disse Louise.
De repente, Louise surgiu num ambiente quente, com um mar de fogo e muitos indivíduos sofrendo. Era o inferno, e ela se perguntou:
-Mas que palhaçada é essa?
Alguém, semelhante a um zumbi, pegou no ombro da mulher e disse:
-Ajuda...
A mulher deu-lhe um soco e o empurrou do penhasco. Ela gritou olhando pra cima:
-SOCORRO! ME TIREM DAQUI!
Ela então sumiu daquele local e voltou a relva, toda bronzeada, suada e assanhada. Kátia sorriu e perguntou:
-Louise, onde esteve que voltou parecendo uma franga depenada e assada viva?
-Cala essa boca senão eu te mato!
-Só se for de novo! (Risos).
São Pedro falou:
-A única na lista para estar aqui é a Carmem. Segundo as escrituras, ela morreria na data de hoje, vítima de muitos escombros que esmagaram sua cabeça.
Carmem fez cara feia e disse:
-Pô, não tinha uma morte menos trágica não?
São Pedro continuou:
-Apenas Carmem ficará aqui, ela ainda passará por alguns procedimentos antes de ter seu destino final. Enquanto a vocês, que na verdade não estão mortos, mas em coma, despertarão e não lembrarão do que se passou aqui.
Todos, com exceção de Carmem, desapareceram do local e saíram do coma.
Alguns meses depois.
Kátia, com um novo visual, usando um estilo de cabelo Chanel, roupas mais simples e óculos de grau, estava pronta para ouvir o resultado das eleições. Ela era candidata a vereadora e estava ávida. Ela balançou o sino e disse:
-Vamos criada, traga-me um copo d’água com açúcar, pois estou tão nervosa que já mordi todas as minhas unhas e agora estou mordendo as unhas do Oliver.
-Eita que a escrava aqui sofre. Tomara que tu perda!
-Calada, inútil. Imagina, não posso perder a oportunidade de ganhar dinheiro fácil.
O resultado saiu e Kátia foi eleita a vereadora. A mulher comemorou ao lado de Oliver. No palanque, ao lado do prefeito, vice-prefeito, governador e outros vereadores eleitos, ela cumprimentou a todos e acenou para o público. Quando chegou sua vez de discursar, ela disse:
-Caros eleitores aqui presentes, é com muita satisfação que agradeço a cada um que me deu essa chance de poder representa-los na câmara e lhes digo mais, é de pessoas honestas como eu que o Brasil precisa. Hoje sou vereadora, mas minha meta é ser presidenta do Brasil no futuro. Obrigada amores.
Quando ia embora, ela entrou no carro e perguntou a Oliver:
-Onde está o álcool?
-Aqui madame! – Disse o rapaz, entregado o álcool em gel para a nova vereadora.
-Peguei na mão de muitos pobres, e fui cobrada por outros também.
-Cobrada pelo o quê?
-Prometi dinheiro e emprego para uma penca de gente e agora eles querem. Eu não vou dar é nenhum tostão, aliás, não vou dar nem atenção.
-Mademoiselle, pensei que todas aquelas promessas eram bem intencionadas?
-Que bom, isso quer dizer que eu minto muito bem. Já viu político bem intencionado? Eu nunca vi! – Ela gargalhou, ligou o carro e os dois foram embora. 
(...)