EX-MADAME 02

CAPÍTULO 02

O retorno

Kátia, agora com um nome falso, Kyara, havia se casado há quase seis meses com o banqueiro italiano Enrico Feriolli. Ela voltou a ter uma vida de madame, na Itália, e voltou a ser a mesma patroa chata. Ela balançou o sino:
-Deseja algo senhora? - Perguntou Eugênia, a empregada.
-Se eu balancei o sino é claro que desejo algo, ou você espera que eu esfregue a lâmpada do Aladim e saia de dentro uma anta com cara de gênia, chamada Eugênia?
-Me perdoe senhora.
-Não perdoo, sei que faz isso de propósito. Quero que prepare para o almoço lasanha de frango e sirva suco de uva.
-Sim senhora. Mais alguma coisa?
-Sim, me diga onde está o Frank. Aquele mordomo vive sumindo, parece político quando vence uma eleição.
-Ele foi à feira. Lembra que a senhora pediu para que ele comprasse um tecido igual ao do vestido da madame Violetta?
-Fale baixo, ou pensarão que sou invejosa.
-Tudo bem. Mais algum pedido?
-Sim, desapareça da minha frente!
A empregada então voltou à cozinha. Ela comentou com a cozinheira:
-Carlota, estou prestes a pedir as contas e procurar um emprego que eu me sinta bem. Aquela vagabunda da Kátia me maltrata como se eu fosse uma cadela sem dono.
-Entendo, mal ela sabe que você é uma cadela com dono, afinal, você mora com os pais.
Eugênia ficou embravecida. O mordomo chegou, contente:
-Encontrei o tecido da minha rainha. É igualzinho ao da madame Violetta. As mulheres ficaram caladas. Enrico estava no banco, quando recebeu o telefonema da esposa:
-Alô, amore mio! - Disse ele.
Ela estava no carro e colocou o celular no viva-voz:
-Olá, amore mio. Estou passando pra desejar um bom dia!
-O dia já começou bem com a sua ligação. – Disse o homem sorrindo.
-Decidi fazer a minha festa de aniversário no sábado, e convidarei alguns parentes e amigos.
-Nossa, o dia já está deixando de ficar bom, meu coração. E quantas pessoas pretende convidar?
-Mais ou menos umas seiscentas.
O homem que estava tomando café, engasgou-se e perguntou:
-O quê? Vai convidar Roma inteira?
A mulher sorriu e falou:
-Adoro seu senso de humor, querido. Essa pequena quantidade é apenas amigos e parentes íntimos. Ah, contratarei um buffet.
Ele então falou, desmotivado:
-De repente o dia ficou péssimo!
Frank colocou o vestido da patroa sobre a cama e saiu. Kátia foi ao shopping e fez algumas compras. Na hora de entregar a identidade junto ao cartão de crédito, ela entregou o verdadeiro documento e quão grande foi o susto quando a moça do caixa disse:
-Senhora Kátia digite sua senha!
-Quem você chamou de Kátia? – Perguntou a mulher, assustada.
-A senhora!
-Meu nome não é Kátia, me chamo Kyara!
-Então esse documento não é seu?
A mulher tomou o documento das mãos da funcionária, e sorrindo, falou:
-Desculpe, entreguei o documento da minha irmã gêmea, que mora no Brasil. Aqui está a identidade correta!
Eugênia subiu à suíte da patroa e revirou portas e gavetas, tentando encontrar algo sobre o passado de Kátia, mas nada encontrou.
Mais tarde o almoço foi servido. Carlota perguntou aos patrões:
- Precisam de mais alguma coisa?
Kátia respondeu:
-Preciso de sal, pois a lasanha está muito insossa. Preciso também de açúcar, pois o suco está muito azedo. Ah, preciso também de vergonha na cara, para começar a demitir vocês, bando de incompetentes.
Os empregados baixaram a cabeça e Enrico falou:
-Amore mio, está sendo dura com elas.
-Eu dura? Imagina amorzinho. Eu pior do que isso me transformo na pomba-gira.
À noite, Enrico procurou a esposa no quarto e não a encontrou. De repente, ouviu miados estranhos e disse:
-Que porra é essa? Será um gato? Se for, deve estar tendo um AVC.
Subitamente, a mulher saiu do banheiro com uma fantasia da mulher-gato e disse:
-Miau! Vem cá meu amor, me chama de gata e atira o pau em mim!
O homem pediu para que ela esperasse e foi ao banheiro. Quando voltou, estava fantasiado de velha, e disse:
-Agora sim, estou fantasiado de dona Chica. Vou atirar o pau na gata!
Os dois então se beijaram e “pularam” na cama.
Alguns dias depois.
Sábado chegou, e junto, a empolgação de Kátia pelo seu aniversário. Ela foi ao SPA e deixou os preparativos por conta dos empregados. Eugênia voltou a revirar as coisas da patroa, quando encontrou seu documento de identidade verdadeiro:
-Eu sabia que ela era uma impostora! - Disse a empregada olhando para o documento. A empregada guardou o documento no bolso do seu avental e quando ia saindo do quarto, o mordomo a viu:
-O que fazia no quarto da madame Kyara, sua ratazana sonsa? - Perguntou ele.
-Estava arrumando o quarto.
O mordomo abriu a porta, adentrou o quarto e perguntou:
-E por que a colcha está bagunçada, os travesseiros estão no chão, as portas do closet estão abertas, a gaveta do criado-mudo está arrancada, o chão cheio de lixo, o teto com teia de aranha, etc.?
-Ora Frank, quem dorme nesse quarto? Uma leitoa rica e falsa.
-Como assim, falsa? - Perguntou o mordomo, desconfiado.
-Nada. Estou delirando. Depois eu volto pra arrumar essa bagunça.
No SPA, Kátia estava fazendo drenagem facial, e reclamou:
-Cuidado querida, essas patas estão me machucando!
-É porque minhas mãos são um pouco másculas! - explicou a massagista.
-Então melhor dar aulas de box ao invés de trabalhar massageando rostos delicados como o meu.
A mansão estava sendo decorada. Eugênia e Carlota deram uma limpeza no salão de festas. Carlota estranhou a alegria da colega e perguntou:
-Eugênia, estou achando você muito alegre, está acontecendo alguma coisa?
-Nada demais. Estou feliz, não posso?
-Pode. Mas da última vez que ficou tão feliz assim, a cadela da patroa foi atropelada.
A empregada sorriu e continuou o trabalho. O mordomo arrumava as roupas da patroa, quando as cheirou e disse:
-Sou louco nesse cheiro. Se eu pudesse tê-la para mim, Kyara, amore mio!
Enrico acompanhou a decoração do salão, e calculou seus gastos:
-Caramba, aquela vaca vai me falir!
No SPA, Kátia estava deitada, de barriga para baixo, completamente nua, quando foram colocadas pedras quentes em suas costas (é um tipo de massagem). Ela levantou, pegou uma das pedras e a atirou na cabeça da massagista:
-Você ficou louca? - Perguntou a massagista.
-Louca ficou você, que colocou pedras pegando fogo em minhas costas. Senti como se eu estivesse escalando dentro de um vulcão, e que as pedras eram meteoritos caindo sobre minhas costas.
A massagista ficou irritada. Enrico entrou no quarto e flagrou o mordomo cheirando as roupas de Kátia:
-Frank, por que está cheirando as roupas da minha mulher?
O mordomo assustou-se e inventou uma desculpa:
-É uma nova técnica de detectar bactérias sobre roupas. Aprendi num curso de técnicas domésticas de um chinês.
-Ah que bacana, aproveita e cheira as minhas roupas também, tenho muito medo de bactérias.
Frank, enojado, pegou uma bermuda do patrão, a cheirou e disse:
-Que horror, essa bermuda está fedendo a cocô!
-Oh, perdão. Foi no dia em que não deu tempo chegar ao banheiro e acabei fazendo cocô na bermuda. Desculpa! (Risos)
O mordomo vomitou e o patrão com cara de reprovação, disse:
-Agora limpa!
Eugênia se afastou de todos e olhou para o documento da patroa, dizendo:
-Hoje à noite eu desmascaro essa vadia, e após tantos meses a aturando, finalmente me livrarei dela!
No SPA, Kátia foi fazer depilação de axila. A depiladora colocou a cera, o lenço e quando puxou, a madame deu um grito e disse:
-Ai! É pra tirar somente os pelos da axila, não o meu braço, sua doida!
-Minha senhora, eu trabalho como depiladora há vinte e seis anos!
-Percebi pela cara de anciã!
-A senhora está desvalorizando o meu trabalho, sabia?
-Sério? Como faço para desvalorizar você e o seu trabalho juntos?
A depiladora parou o que estava fazendo e saiu da sala.
À noite, o salão de festas estava cheio. Tinha muita comida, muita bebida e muita música. O retrato de Kátia estava por toda parte, o que irritou as inimigas. Eugênia preparou o projetor para fazer a grande surpresa e desmascarar a patroa.
Exatamente às vinte horas, fogos de artifício subiram aos céus para dar brilho à noite de comemoração por mais um ano de vida da socialite.
Ela entrou no salão. Estava vestindo um terninho escuro, e usando muitas joias. Cumprimentou todos que ali estavam. Eugênia então ligou o projetor e foi reproduzido um slide de fotos da aniversariante e todos pararam para olhar. De repente, o aparelho "travou" na foto da carteira de identidade da madame. Todos acharam estranho, pois no documento, havia seu nome verdadeiro: Kátia Lamartine Rodrigues. A socialite ficou desesperada ao ver a foto e quebrou o projetor, fazendo a imagem desaparecer. Enrico não entendeu o que se passou e Eugênia fez questão de explicá-lo e entregou-lhe o documento. Ele pediu explicações:
-Kyara, o que significa isso?
-Amore mio, está na cara que isso é armação dessa piranha, com o intuito de me prejudicar!
-Armação é o cassete. Você é uma criminosa. Isso é falsidade ideológica. – Disse Eugênia.
-Falsidade ideológica é o sopapo que vou dar na sua cara, sua vaca! – Disse Kátia.
A madame partiu pra cima da empregada, mas foram apartadas pelo mordomo. Enrico falou:
-Kyara, me conte toda a verdade, será mais fácil perdoá-la!
Segura de que seria perdoada, a mulher contou toda a verdade sobre sua farsa:
-Eu paguei caro por esse documento falso. Não me chamo Kyara, me chamo Kátia. Quando fiquei viúva do Francês Nicollas Lamartine, perdi tudo, só me restou uma mansão mobiliada, no Brasil. Eu jamais perderia minha pose de madame, então no Brasil, tentei manter uma imagem, mesmo passando fome igual uma pobre miserável nascida no meio do pauperismo. Até que um dia, fui levada a uma armadilha, numa casa, atraída pela mentira, traída pela ambição. Cavei um buraco no jardim da tal casa. Quando encontrei um baú, eu o abri e dentro havia uma bomba-relógio. Por sorte, escapei da morte. Então tive a ideia de fazer um documento falso e uma rede social falsa também, com o nome de Kyara Agnelli. Daí, conheci no facebook você, Enrico. Casamos e você me trouxe para a Itália, achando que eu descendia de Italianos, conforme lhe falei.
-E aqueles familiares que você levou para nossa festa de casamento? - Perguntou o homem.
-Eu os paguei. Eram atores desempregados. Vendi algumas obras de arte de minha casa e os paguei para que fingissem ser meus parentes. Meus verdadeiros parentes estão no Ceará. São um bando de abutres.
O homem ficou calado. Ela se ajoelhou aos pés dele e pediu:
-Me perdoa amore mio! Eu te amo!
Eugênia sussurrou no ouvido do patrão:
-Não perdoa!
Frank e Carlota ficaram aflitos com o silêncio do patrão. Enrico disse:
-Fora da minha casa, impostora, pistoleira, vagabunda, mentirosa, traidora, bruxa...
-Você está querendo dizer que vai se se separar de mim?
-Óbvio. Já até mandei um zap para o meu advogado preparar a papelada do divórcio.
Kátia se enfureceu e disse:
-Pois eu vou fazer um arrastão. Quero boa parte dos seus bens.
-Desafio você a abrir um processo contra mim. Você irá como Kyara ou como Kátia? O juiz vai adorar saber que você usa nomes falsos.
Kátia, com medo de ser presa, foi arrumar suas coisas. O mordomo foi atrás dela e disse:
-Madame, se quiser, posso abrigá-la em minha casa. É uma casa humilde, com algumas goteiras, cômodos pequenos, e com muito mosquito, mas prometo fazê-la feliz até que a morte nos separe.
-O que quer dizer com isso Frank?
-Que sempre fui apaixonado pela senhora, e que chegou a minha chance!
-Chance de quê? Vai me ajudar a morrer de fome? Prefiro voltar para o Brasil.
A mulher passou por Eugênia e disse:
-Algum dia iremos nos encontrar, e nesse dia, você se arrependerá.
Eugênia cuspiu na cara da mulher e disse:
-Vá se ferrar!
Enrico pediu para que os convidados fossem embora e subiu para o quarto. Da janela do seu quarto, viu a ex-mulher entrando no táxi e partindo.
Quando passou perto da Fontana di Trevi, ela pediu para o taxista parar o carro e foi até a fonte com uma moeda na mão:
-Vou jogar uma moeda. Dizem que se nós jogarmos uma moeda nessas águas, voltaremos à Roma. Vou fazer melhor, vou jogar meu cofre inteiro! - Ela pegou seu cofrinho em formato de porco e o jogou na fonte dos desejos. Depois entrou no táxi e foi para o aeroporto. No dia seguinte, à tarde, Kátia chegou à sua mansão:
-Enfim, de volta a derreter na baixa “rendisse” do Brasil. – Disse ela.
Ela entrou na mansão, que estava muito suja e empoeirada. Ela então ligou para uma agência de diaristas e contratou três para arrumarem sua casa. Quando estava procurando um hotel perto da mansão, viu Oliver decorando uma igreja. Ela o chamou:
-Oliver, que bom revê-lo!
O rapaz parou o que estava fazendo e foi abraçar a ex-madame:
-Mademoiselle, você voltou! Que visual é esse?
-Esse é o visual da Kyara. – disse a mulher, desanimada.
Os dois então foram para um hotel. No quarto, eles conversaram sobre tudo o que lhes aconteceu nos últimos meses. A mulher pediu um champanhe:
-Champanhe pra gente, biba louca, para comemorarmos nosso reencontro.
Nesse momento alguém bateu na porta, Oliver foi ver quem era e deu de cara com Samantha:
-Salamandra, você trabalha aqui?
-É, eu tive duas opções: Pedir esmolas na rua ou trabalhar aqui como camareira. A escrava aqui sofre.
-Prima, vamos para a mansão quando ela estiver limpa. – disse Kátia.
Dois dias depois, Kátia, Samantha e Oliver foram para a mansão. Kátia disse:
-As condições serão as mesmas. Samantha será minha empregada. Oliver, arrume um emprego o mais rápido possível. E eu tentarei dar um golpe em alguém.
Os dias se passaram. Carmem viu numa revista de fofoca sobre a volta da sobrinha ao Brasil e foi até a mansão. Kátia estava na suíte, quando a campainha tocou. Samantha abriu e:
-Carmem, que surpresa péssima vê-la por aqui. – Disse a moça.
A mulher, com um litro de cachaça na mão, invadiu a casa e disse:
-Voltei pra ficar. Onde está a minha sobrinha preferida?
-Lá em cima. Vá até a suíte dela e traga o balde que tem lá. – Pediu Samantha.
A mulher não entendeu e foi ao quarto da sobrinha. Ao adentrá-lo, ela viu um balde e disse:
-Sobrinha querida, que bom revê-la. E esse balde, está cheio de água?
-Não é água, são lágrimas. Já chorei tanto que ao invés de lágrimas, estão caindo agora os meus cílios.
-Mas por que tanto choro?
-Porque fui banida de Roma pelo meu ex-marido. Fui expulsa de sua casa como uma delinquente, e pior, com uma mão na frente e outra atrás.
-Vamos combinar que você é quase uma delinquente não é mesmo queridinha. Lembro-me quando você era pequenina, mamando nas tetas de sua mãe. Quando ela falava mal do seu pai, você dava uma mordida. Teve uma vez que a mordida foi tão forte que no hospital, o médico perguntou se sua mãe havia sido mordida por um vampiro!
-Tia, preciso voltar a ficar rica. Preciso voltar a ter dinheiro, e não posso tocar em mais nenhum móvel, escultura, quadros nem joias. Preciso manter minha pose de rica.
Carmem ficou pensativa. Oliver recebeu um telefonema:
-Alô!
-Olá. Falo com Oliver?
-Depende!
-Depende do que?
-Do assunto. Se for cobrança, não é o Oliver.
-Deixa de ser boba, mona, sou eu, André.
-André Rocha? Aquele que durante o dia é André e durante a noite se transforma em Andreia Butterfly?
-Eu mesmo. Estou com um problema e só você pode me ajudar.
-Conta bicha!
André então contou seu problema. À noite, Samantha preparou um jantar não muito especial. Kátia balançou o sino e o jantar foi servido:
-Criada, que gororoba é essa que você está nos servindo?- Perguntou Kátia.
-Sopa de legumes selecionados!
-Legumes selecionados?
-Sim, legumes que foram selecionados para irem pro lixo. Eles estavam estragados, daí eu os apanhei do chão da feirinha e aproveite o lado que estava bom. Na verdade eu aproveitei o lado bom e o lado estragado.
-Eu me recuso a degustar de tão repugnante jantar.
Carmem sugeriu:
-Peçam uma pizza, daí vocês ficam com a pizza e eu fico com o entregador.
No dia seguinte, Oliver explicou o plano para o novo golpe:
-Mademoiselle, um amigo meu, André, tem uma avó que prometeu inclui-lo no testamento, no dia do seu casamento. Porém, ele é gay e jamais casaria com uma mulher.
-E qual é o seu plano?
-Vamos fazer um casamento de mentira.
Kátia perguntou:
-Casamento de mentira? Explica isso direito, monete.
-É simples, já planejei tudo. Eu posso fingir que sou o padre, Salamandra a noiva, você a mãe da noiva, Carmem uma freira e contratarei alguns atores amadores para encenarem como convidados.
Kátia deu uma risada maligna e disse:
-Tudo bem, mas quero uma boa parte da fortuna da velha.
-André nos prometeu uma boa quantia. A velha é podre de rica.
Alguns dias depois.
A mansão estava arrumada e o jardim enfeitado. Samantha estava vestida de noiva, com direito a véu e grinalda. Ela disse:
-Ai meu Deus, estou tão emocionada. Nunca pensei que algum dia eu fosse casar!
-Esse dia realmente não vai chegar, panaca. Esqueceu que esse casamento é de mentirinha, pra enganar a velha milionária? - Disse Kátia.
-Obrigada prima, você é horrível quando quer ser péssima.
André conversou com Oliver:
-Bicha, se tudo der certo, meu nome será incluído no testamento. A vovó voltará para Amsterdã e eu assumirei um cargo muito importante na empresa, além de receber uma herança gorda.
Oliver falou:
-Nós ficaremos ricos. Não esqueça que você nos prometeu imóveis, ações nas empresas e dinheiro, muito dinheiro. Já tenho muitos planos: expandir meu salão de beleza e espalhar filiais e claro, ter o bofe que eu quiser.
Alguns minutos depois, Leocádia chegou à mansão. Ela era uma idosa carrancuda, tinha bigode e usava uma bengala. O rapaz foi receber a avó e apresentou a suposta "mãe da noiva":
-Vovó, esta é Kátia, minha futura sogra! –Disse o rapaz.
-Prazer dona Leocádia! – Disse Kátia estendendo a mão.
-Infelizmente não posso dizer o mesmo. Você é feia!
Kátia ficou pasmada com a ofensa e perguntou:
-A senhora tem excesso de sincericídio não é mesmo?
-Mentira, eu nunca tentei o suicídio.
A velha era surda. Kátia sorriu e saiu. No jardim haviam alguns atores contratados apenas para estarem presentes na mansão, como convidados. Oliver foi apresentado:
-Vovó, esse é o Padre Oliver! - Disse André.
Oliver pegou a mão da anciã para beijá-la, mas ela não deixou, deu uma bengalada nele e ele perguntou:
-Por que me bateu?
-Você tentou me morder!
Kátia comentou com Samantha:
-A avó do André é uma insuportável. Me chamou de feia, imagina só, eu, Kátia Lamartine, sendo chamada de feia.
-Estou com medo prima. Será que meu noivo vai querer levá-la para nossa casa após casarmos?
-Eu que vou te levar pro hospício após essa palhaçada de casamento falso. O casamento é de mentira sua anta!
Leocádia foi ver o que tinha pra comer e se espantou:
-Meu neto, vocês estão servindo sopa de feijão?
Kátia chegou na hora e disse:
-São ervilhas, fontes de vitaminas!
-Mas que meninas?
-FALEI VITAMINAS, VELHA SURDA! – Gritou Kátia.
-Eu não sou surda, você que tem problema de dicção.
Kátia virou os olhos e saiu. De repente, todos se organizaram e a noiva entrou. Uma música começou a ser tocada e a velha colocou um tapa-ouvidos. Carmem, vestida de freira, estava do lado da velha, puxou o tapa ouvidos desta e perguntou:
-A senhora está tapando os ouvidos para não ouvir a música da cerimônia?
-Sim, e para pessoas abelhudas não puxarem assunto comigo também.
-Acho que a senhora deveria estar contente com o casamento da bi..., do seu neto lindo.
-Cuide da sua igreja que eu cuido dos meus ouvidos e dos meus netos.
Carmem estava incomodada com a roupa de freira. Ela então pegou uma garrafa de cerveja e começou a beber. Leocádia estranhou e disse:
-Que blasfêmia, uma religiosa bebendo cerveja!
-Blasfêmia é a sua existência, velha rabugenta!
-Realmente você é um pouco nojenta. Mas deveria respeitar sua religião. Na minha época, isso não acontecia!
-Verdade. Na sua época, as pecadoras eram levadas à forca, porém, a senhora conseguiu fugir. (Risos)
Oliver perguntou aos noivos:
-Samantha Raquel da Silva Barroso do Livramento, aceita André Florêncio Rocha Montenegro, prometendo nunca traí-lo, nunca abandoná-lo, nunca ser uma vagabunda nem ficar bêbada pela casa, até que a morte os separe?
-Aceito! - disse Samantha
-André Florêncio Rocha Montenegro, aceita Samantha Raquel da Silva Barroso do Livramento, prometendo amá-la e nunca mais se montar como drag, na saúde, na doença, na alegria e na tristeza, até que a purpurina os separe?
-Sim!
-Eu os declaro, Marido e Mulher. O marido pode beijar a noiva.
André deu um selinho em Samantha. A festa começou e Leocádia não estava nada satisfeita. Ela pensou: "Coisa mais estranha: O padre rebola mais que a globeleza, a freira é uma alcoólatra, a mãe da noiva preparou sopa de ervilha para servir aos convidados e a noiva parece uma múmia. Está tudo muito estranho."
Mais tarde, a velha se despediu e foi embora. Todos ficaram aliviados. Kátia pagou os atores e estes foram embora. Mais tarde, na sala de estar da mansão, Kátia disse:
-André, meu querido, amanhã você será incluído no testamento da velha coroca, e ficará multimilionário. Espero que não nos passe a perna, caso contrário, irei pessoalmente até a caduca e direi que seu casamento foi uma farsa e que você é gay!
André então disse:
-Não se preocupe Kátia, eu saberei recompensá-los.
Kátia se retirou da sala e foi para o quarto. Tirou a roupa e foi para o banheiro. Ligou o chuveiro e se arrepiou com a água gelada. Procurou o xampu e viu que tinha um resto. Misturou com água e colocou no cabelo. Procurou o sabonete e viu que não tinha:
-Que droga, quando a gente fica pobre tudo acaba mais rápido!
Após o banho, ela dormiu. No dia seguinte, às dez horas da manhã, André chegou à mansão arrasado:
- O que houve amigo? – perguntou Oliver.
-Minha avó descobriu toda a farsa do casório e não me incluiu no testamento. Ela me excluiu até do facebook. Não quer mais olhar pra a minha cara.
-Mas como foi que ela descobriu? – Perguntou Kátia.
-Não sei!
Samantha então foi ao encontro deles e segurando uma escuta, ela disse:
-Vejam isso, encontrei dentro do abajur!
Em seu flat, Leocádia comentou com a filha, pelo telefone:
-Helena, o seu filho, André, é um trambiqueiro. De olho na minha fortuna e sabendo que eu só o incluiria no testamento se ele casasse, ele planejou fazer um casamento de mentira, a fim de me enganar, já que é xibungo. Mas eu sou “macaca velha”. Na escola que ele estudou eu fui expulsa por ensinar a diretora. No dia do tal casamento, mandei meu motorista espalhar escutas por toda a mansão, onde ocorreu a cerimônia. Quando fui embora, a primeira coisa que fiz foi escutar a conversa deles, e eles comentaram entre si sobre a maldita farsa.
-Nossa mãe, bem dizem, mulher de bigode, nem o cão pode!
Samantha entregou uma carta para Kátia, deixada na caixa de correios da mansão. Kátia leu a carta e deu um grito. Todos se assustaram e ela comunicou:
-Eu vou perder a mansão!
(...)