quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Cachinhos desfeitos e os 3 camponeses (Contos Loucos)



Era uma vez uma família de camponeses: O pai, Pimpão, a mãe, Floreza e o filhinho Marcolino. Eles eram quase mendigos, pois eram muito pobres. Eles moravam nos cafundós do Judas, no meio da floresta. A pobre casinha deles era de taipa e tinha poucos móveis, mas eram felizes da maneira que viviam, sem dinheiro, sem graça, sem esperança de melhorar de vida, sem água encanada, etc. Pimpão era um homem forte e muito gordo. Ele
tinha uma voz muito grossa, tinha um jeito meio bruto, era arrogante e mal-humorado. Floreza era doce, meiga, gentil, bobinha, não tinha vergonha na cara, enfim, era do jeito que deu para imaginar. E o filhinho era um palerma, o empregado da mãe, o saco de pancadas do pai. Este era cheio de hematomas, de tanto apanhar. 
Certa manhã, mais ou menos às dez e meia, a mãe preparou um delicioso mingau de goma com açúcar, era o preferido de todos daquela casa (até porque não tinham dinheiro para comprar algo melhor). Quando ela terminou de fazer o mingau, provou e percebeu que além de ruim, estava muito quente, e como desculpa para não ser esculachada pelo marido em plena manhã, ela resolveu convidar o marido e o filho para dar uma volta pela 
floresta:
-Marido, amor, fofo, corno, ops, lindo, vamos levar o nosso bebê para conhecer o ninho de cobras. Quem sabe até o deixamos por lá mesmo, o que acha? 
O marido já com a cara feia respondeu:
-Mulher tu só inventa bobagens. Vamos logo. Chama a criatura que tu diz que é meu filho e vamos logo, pra voltar depressa pra eu comer essa gororoba que tu chama de mingau.
Os três então saíram. No caminho, a camponesa pegou sua caixinha de som e colocou para tocar músicas de forró. O marido tentou aguentar ouvi-las, mas não suportou: 
-Muda de música por tudo o que há de mais sagrado na droga da tua vida, porque senão eu pego essa porcaria e quebrarei todinha. 
A pobre mulher, com olhos lacrimejando, desligou o som e irritada, xingou o marido:
-Cavalo!
Marcolino tentou defender a mãe, mas levou um sopapo no olho esquerdo e começou a chorar. O pai então disse:
-E da próxima vez que tu for dar uma de advogado, massageio tua garganta, com brasa! 
O garoto caiu aos prantos, traumatizado. Enquanto isso apareceu perto da casa da família camponesa uma garota de cabelos alisados totalmente a força bruta, de cor castanho, e esta era conhecida como Cachinhos Desfeitos, mas seu nome na verdade era Diana. Era apelidada porque antes seus cabelos eram cacheados, mas depois de uma escova permanente seus cachinhos foram destruídos. Ela morava num vilarejo do outro lado da floresta e tinha o famoso hábito de “bater perna”, fazendo Deus sabe o quê. De longe viu uma casinha de taipa, bem humilde e logo a invadiu:
- Ah, já que não tem ninguém aqui, vou ver o que tem para roubar!
Ao abrir a porta, ela viu três bacias de alumínio, repletas de mingau. Ela então, já que não havia tomado café da manhã, resolveu experimentar aquela refeição. Primeiro foi a bacia do pai, ao colocar a primeira colher de mingau na boca ela deu um grito e disse:
-Droga! Esse mingau está uma porcaria. Sem sabor e muito quente. 
Depois provou o mingau da mãe, e com mais um grito, disse:
- Inferno! Esse aqui também está uma porcaria. Quem gosta de tomar essa garapa de açúcar? Está muito doce.
Por último, provou o mingau do filho e:
-Adorei! Esse mingau é o único que está saboroso!
Então tomou todo o mingau da pobre e infeliz criança. Depois foi à sala e viu três cadeiras de madeira. Ela então, cansada de andar e com a barriga cheia de tanto comer, resolveu sentar na cadeira do Pimpão e:
-Que cadeira grande, e muito desconfortável!
Depois foi para cadeira da Floreza, e a achou muito apertada. Por último sentou-se na cadeira de Marcolino, mas por não ter postura de gente, não sentou devidamente e acabou quebrando a cadeira.
Depois de muitos palavrões, ela resolveu conhecer um pouco mais a casa, e subiu para o quarto. Ao entrar, viu três camas. Tentou deitar na cama maior, mas achou muito grande e dura. Deitou-se na cama do meio e sentiu mau-cheiro. Por último deitou-se na cama menor e adorou. Ficou lá, deitada pensando na vida, no dia em que foi expulsa da escola, no namorado que a traiu, no aborto que cometeu, e em várias outras coisas. De tanto pensar em tolices, ela acabou dormindo.
Enquanto ela dormia, os moradores daquela casa voltaram do passeio. Foram logo à cozinha tomar o mingau, que era o café da manhã e almoço. Estranharam a porta aberta, e logo perceberam 
que alguém havia estado ali.
- Alguém mexeu no meu mingau! – Gritou o homem.
-Alguém cuspiu no meu mingau! – Disse a mulher.
- Alguém tomou todo o meu mingau! – Gritou o pequeno.
Depois foram até a sala e o camponês disse:
-Nossa, alguém sentou na minha cadeira!
-Ai meu Deus, alguém sentou aqui também, e o pior, fez xixi na minha cadeira! – Disse a camponesa.
O filhinho tão pequeno e pálido disse:
-Alguém me deu um prejuízo!
Os três então foram até o quarto e logo o arrogante homem perguntou:
-Quem deitou na minha cama?
Floreza deu um “berro” e disse:
-Deitaram na minha cama também, o mau-cheiro está reinando o quarto!
Marcolino então falou:
-Tem uma marginal na minha cama, liguem para a polícia, pro exército, pro FBI, socorro!
Com tantos gritos, a menina acordou e logo levou um susto ao ver aquelas pessoas olhando para ela e disse:
-Ô povo feio!
Seu susto foi tão grande que ela pulou da cama, tropeçou no enorme pé de Pimpão e caiu no chão, lesionando o pescoço. Foi levada ao hospital, e depois de um bom tempo voltou para sua casa. Depois desse enorme susto, Cachinhos Desfeitos aprendeu a lição, nunca mais fugiu de casa, muito menos entrou em casa de ninguém sem ser convidada.

Fim

Autor: Francisco Jardson Pires

Versão Original: Cachinhos dourados e os três ursos.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Cinderela (Contos Loucos)



Era uma vez uma garotinha chamada Paulina. Ela morava com seu pai, o pedreiro Oseas. Ele era um homem viúvo, muito doente. Fazia tratamento para o cabelo, que estava caindo, para as unhas que tinham micose, suas pernas que estavam enfraquecendo, cuidava da gastrite, da pressão alta, diabete e úlceras.
Ambos moravam numa casa bem grande, embora velha e caindo aos pedaços, mas era bem grande. Eles eram mais do que simples pai e filha, eram amigos, pois compartilhavam seus sentimentos, sem a menor vergonha um do outro. Na verdade, eles não tinham vergonha na cara. Vergonha era uma palavra que não existia no vocabulário deles.
Certo dia, Oseas chegou de carroça com uma mulher e duas meninas quase da idade de Paulina. Então ele chamou a filha e disse:
-Filha amada, venha ver sua nova mamãe e suas lindas irmãzinhas!
Ao ouvir isso, a garota logo pegou um cabo de vassoura e foi ao encontro do pai. Furiosa, ela perguntou:
-Papai amado, por que isso agora? Já lhe disse que de animais, nosso quintal já tem demais.
Oseas não deu bola para o que a filha disse e pôs a fazer as apresentações:
-Essa é Matilde, sua madrasta. As garotas são suas novas irmãs, Antônia e Antonieta. Tenho certeza que irão adorar estar na companhia umas das outras.
-É sim maninha – Disse Antônia – A gente vai se divertir bastante. Vamos brincar de amarelinha, jogo da morte, e muitas outras brincadeiras. Vamos compartilhar vestidos...
-O quê? – Gritou Paulina.
Antonieta então explicou:
-Calma, é brincadeira da Antônia. Ela é tão graciosa.
Todos então entraram na casa. Matilde observou o tamanho do imóvel e sua mobília.
Na semana seguinte, Oseas e Matilde casaram.
Certo dia, o pai de Paulina e seu melhor amigo, Ricardo, saíram para caçar rãs para o jantar. No caminho, ele sentiu uma forte dor e disse:
-Amigão, estou com uma dor. Leve-me, por favor!
Ricardo assustado, perguntou:
-Onde fica a dor? Deixe-me ajudar. Respire fundo, quem sabe você possa melhorar!
-A dor está me matando, não sei se vou suportar. O que farei se isso continuar?
-Diga-me onde está doendo, e pare de tanto falar!
-É na barriga. Estou com dor de barriga, e preciso evacuar.
E o pobre homem correu feito um louco até o matagal. Ao terminar de fazer suas necessidades, ele levantou e sentiu outra dor:
-Socorro irmão! Dá-me sua mão!
Ricardo estendeu a mão, mas Oseas caiu duro no chão, morto. Ricardo correu até a casa do amigo para dar a triste notícia à família. A primeira pessoa quem ele encontrou foi a esposa, e logo disse o ocorrido. A malvada fingiu que havia ficado abalada e disse que ia comunicar à enteada. Ricardo então pediu:
-Senhora, fale com jeitinho. Diga de um modo que ela não se desespere e ofereça apoio total a ela.
Ela balançou a cabeça que sim. Ao entrar no quarto da garota, Matilde a chamou e disse:
-Paulina, é sobre seu pai...
-O que houve com ele? – Perguntou a garota.
-Ele MORREU! – Disse a malvada, assustando-a.
A menina gritou e caiu aos prantos. A madrasta continuou:
-Ele morreu, bateu as botas! Ele morreu que nem o seu cachorro!
-Meu cachorro morreu?
-Sim. Atropelei ele hoje mais cedo.
A menina saiu do quarto desesperada chorando e foi ao túmulo de sua avó, que ficava no jardim. Ela desenterrou o caixão, tirou o esqueleto da avó, o abraçou e disse:
-Vovó, a senhora prometeu que ia me proteger e não está fazendo isso, vou arrancar sua cabeça do corpo para ver se assim você aprende a lição!
No dia seguinte, Matilde acordou Paulina às 4:30 da manhã e disse:
-Acorda vagabunda! A partir de hoje você servirá a mim e às minhas filhas. E não te chamaremos mais pelo seu nome, e sim Cinderela, ou simplesmente calhambeque, corrimão, cadela, entre outros.
A partir desse dia, a vida de Paulina, agora chamada Cinderela, iria se tornar um inferno.
Os anos se passaram. Cinderela, mulher feita e muito bonita, era tratada como escrava e sofria as maldades da madrasta, acompanhada das filhas. Uma de suas maldades foi jogar fora todas as roupas novas da garota, deixando-a somente com trapos para vestir em casa, e sempre a pobre moça era cobrada:
-Cinderela, onde está minha calcinha?
-Cinderela, você já fez meu bolo de chocolate com nozes?
-Cinderela, já varreu o curral das vacas?
Cinderela estava ficando desnorteada com tantas tarefas domésticas e com tanta cobrança. De longe ela ouviu a madrasta perguntar:
-Cinderela, as galinhas já comeram?
Zangada a moça respondeu:
-Não, mas o milho já está na mesa, se a senhora quiser, já pode chamar suas filhas e vir comer.
Ao ouvir isso, a madrasta se enfureceu, foi até a garota e a deu um cascudo. Neste momento Antônia apareceu e disse:
-Bem-feito! Dá mais mamãe!
-Deixe para amanhã filhinha, há, há, há...
Quando as duas saíram, Antonieta, com jeitinho meigo disse:
-Não fique assim Cinderela. Acabe com isso, tome veneno, coloque a corda no pescoço e se enforque ou corte os pulsos, pois só a morte para salvá-la. - E ela saiu gargalhando.
Certo dia, o Rei anunciou que iria haver um forró no reino, e que todas as moças solteiras e bonitas da cidade deveriam ir, apenas as bonitas, as feias seriam barradas, pois uma das moças bonitas se tornaria a noiva de seu filho, o príncipe Demétrio. Todas as moças ficaram ansiosas para ir à festa, e com as filhas da madrasta não foi diferente:
-Mamãe, mamãe, vamos ao bazar, comprar nosso vestido.
-Sim, vamos mais tarde querida.
Cinderela humildemente disse:
-Também vou ao baile!
Antônia se aproximou da garota e disse:
-Você não pode ir ao baile.
-Ué, por quê?
-Ah, porque seu cabelo é morto, sem vida, sem brilho, sem graça e ruim. Você não tem vestido, não tem sapatos e não tem maquiagem. E eu não vou emprestar as minhas coisas.
As três deram altas gargalhadas e a madrasta disse:
-Ora Cinderela, termine seus afazeres primeiro, e depois pense na diversão.
No dia do baile, todas já estavam arrumadas, menos Cinderela, que trabalhava igual um bicho:
-Madrasta, não conseguirei terminar os afazeres a tempo!
-Isso é um problema seu!
E as três saíram, deixando Cinderela aos prantos, desespero, raiva, trauma, etc. Minutos mais tarde, Cinderela viu uma forte luz que brilhava atrás das moitas. Ela então, com seus olhos inchados de tanto chorar, foi ver o que era. De repente, viu uma mulher, que disse:
-Olá! Você que é a Paulina Viana Teixeira Azevedo Ramos de Sousa Negreiros Albuquerque, conhecida como Cinderela?
-Sim sou eu mesma em pessoa e você quem é?
-Ah eu me chamo Custódia. Sou sua fada-madrinha!
-Então não perca tempo e me transforme!
A fada então a transformou numa mula. Olhou bem para o animal, desfez a transformação e perguntou:
-O que achou?
Cinderela, furiosa, disse:
-Era para ter me transformado em princesa, sua idiota!
-Ah, claro, tinha esquecido. Seu vestido será de seda, seus sapatinhos não serão de cristal, mas sim vidro, consegui no camelô!
A fada se preparou para transformar a moça e disse suas palavras mágicas:
-Salacatuba, mexicatuba, tiri tirapt pum!
De repente, Cinderela foi transformada numa princesa e disse:
-Estou linda, me sinto uma atriz de Cinema. Mas fada, o reino é longe, como irei?
- Precisarei de uma abóbora e quatro ratos...
-Xi, não tem! A madrasta é tão miserável que só almoça e janta macarrão instantâneo.  E os ratos morreram de fome.
Neste momento a fada viu uma carroça e disse:
-Hum, já sei! Só preciso de um cavalo.
E Cinderela foi levada ao reino de carroça. Ao chegar, ela logo viu a fada, que já havia se materializado no local. A fada-madrinha disse:
-Querida, meia-noite o encanto acaba. Você terá que dar uma de louca e sair da festa, ou voltará a ser aquele farrapo de gente de algumas horas atrás, e será linchada caso isso ocorra.
Ao entrar no palácio, todos a olharam deslumbrados, pois a garota realmente estava muito bela, e estava se sentindo a rainha da cocada preta. O príncipe já havia dançado com trinta moças, mas não gostou de nenhuma delas. Mas ao ver Cinderela, seu coração bateu mais forte e ele sentiu algumas vibrações no corpo. Foi cumprimentá-la e convidá-la para dançar:
-Olá gatinha, está afim de dançar esse forró comigo?
Ela então respondeu:
-Só se for agora!
E eles foram para o meio do salão e dançaram muito. Antonieta comentou com sua mãe:
-Mamãe, você não conhece aquela “zinha” de algum lugar?
-Creio que sim, talvez da feira da farinha, minha filha.
Cinderela e o príncipe dançaram bastante, sem parar. Ele já não estava aguentando a moça pisar em seus pés, quando de repente deu meia noite, e a moça saiu correndo feito uma doida.
Quando ela estava descendo a escada do palácio, um dos sapatinhos quebrou e ela disse:
-Mas que sapatinho ruim, ninguém merece uma fada avarenta, o que farei? Ah, vou deixar o outro aqui, afinal, de que me servirá apenas um sapato.
O príncipe tentou alcançá-la, mas não conseguiu, viu o sapatinho dela e o apanhou.
No dia seguinte o príncipe pediu ao Duque que fosse ao vilarejo testar o sapato no pé das moças. Aquela em que o calçado servisse seria a princesa. E o duque foi. Depois de passar por muitas casas, finalmente ele chegou à casa onde morava cinderela. Nesse momento as filhas da madrasta trancaram a pobre órfã no sótão. Enquanto isso, Matilde fez sala para o Duque:
- Pois é senhor Duque, eu estou à procura de um marido sabe...
-Difícil alguém que queira!  - Disse ele.
-O que disse?
Neste momento, as filhas dela desceram animadas e ansiosas para calçar o sapatinho de vidro. A primeira a experimentar foi Antônia, mas o calçado era número 44, e ficou muito grande no pé dela. Depois foi a vez de Antonieta, mas seu pé era número 48, e o sapato ficou pequeno. O duque então disse:
-Infelizmente não deu no pé de vocês, aliás, vocês viram que não dava e mesmo assim quiseram calçar. Vocês são ridículas.
Enquanto isso, Cinderela pensava numa estratégia para fugir do sótão. Então ela viu álcool e fósforo e teve a ideia de incendiar tudo, mas a idiota não se deu conta de que colocaria sua vida em risco. Então ela ateou fogo no local e começou a gritar. Logo depressa o corpo de bombeiros chegou e apagou as chamas que já estava se alastrando para a cozinha. Cinderela, mesmo sendo levada na maca, disse:
-Eu quero calçar o sapatinho, eu serei a princesa!
Ouvindo isso, o Duque testou o calçado nela e disse:
-Mocinha, você é a nova princesa. Se você morrer será muita falta de sorte!
Mas felizmente tudo acabou bem e ela casou com príncipe. A madrasta e suas filhas foram morar no reino, pois a casa foi totalmente incendiada. Mas elas foram morar e trabalhar, foram ser empregadas no Castelo. Cinderela ao passar por elas disse:
-Quero ver todas trabalhando, nada de moleza hein!
E assim todos viveram, alguns felizes, outros infelizes, para sempre.  
     
Fim.
Autor: Jardson Pires
Versão Original: Cinderela
Criado em 2010.













terça-feira, 29 de agosto de 2017

Chapeuzinho Amarelo (Contos Loucos)

Imagem do google



Era uma vez uma garotinha antipática, que sempre usava capuz amarelo, da cor de sua pele. Seu nome, Flora, e morava num bosque, no meio da floresta. Um dia, sua mãe, dona Dadá, pediu que a garota levasse alguns alimentos para sua vovozinha, dona Cândida. A mãe da garota pediu que ela fosse pelo atalho, mas, contrariando sua mãe, a menina preferiu não ir pelo atalho que a levava mais rápido ao seu destino e foi pelo outro caminho, escuro, estranho, pavoroso. No meio do caminho, apareceu um Lobo e disse:
- O que uma garotinha com cara de travessa, baixinha e “anêmica” faz sozinha nesse matagal?
Chapeuzinho amarelo respondeu:
- É porque a histérica da minha mãe me obrigou a andar léguas e mais léguas até a casa da rabugenta da minha avó para levar alguns “bagulhos” para ela, nessa cesta mofada e suja.
- Hum, e o que tem nessa cesta mofada e suja?
Chapeuzinho coçando a cabeça, acho que era piolho, respondeu:
-Calma aí, você falou comigo, fez perguntas e não me disse seu nome, endereço, estado civil e tipo sanguíneo. Não é comum eu ter contato com lobos.
O lobo sorrindo, falou:
-Oh, me perdoe. Meu nome é Penuti, e sou mais conhecido como o gostosão da floresta.
Chapeuzinho deu uma risada sarcástica e logo ficou com muito medo e quando tentou sair de fininho, o lobo percebeu e tentou pegá-la, mas ela foi mais ágil e saiu correndo igual uma barata tonta. No caminho ela avistou uma carruagem e gritou por socorro. A carruagem parou e desceu uma mulher com a cara ruim. Era a madrasta de Cinderela:
- O que você quer, garota amarela?
-Por favor senhora, me leve com você. Tem um lobo feio querendo me pegar, acho que ele quer me comer!
Uma das filhas da madrasta, disse:
-Não a leve mamãe! Quem manda ela ficar andando à toa, batendo perna pela floresta.
A madrasta riu de chapeuzinho e foi embora com suas filhas.
Com muito medo, Chapeuzinho correu, correu e correu. Por cansar muito rápido, pois era sedentária, ela parou para respirar. Então apareceu Neve de Branca e perguntou:
- Olá menina amarela! Você também está perdida?
Flora respondeu:                                                                   
-Estou sim. Desobedeci minha mãe e agora estou sofrendo aqui. Tipo assim, estou comendo o pão que o diabo amassou.
-Nossa, que coisa chata. Meu caso é diferente. A bruxa malvada morre de inveja da minha beleza, pois eu sou linda, e acabou mandando um de seus servos me matar. Mas felizmente ele teve piedade e me deixou fugir.
Chapeuzinho, atordoada e com medo, pediu para que Branca a ajudasse a voltar para casa. A moça disse que ia passar o trem das vinte horas, e mandou a menina esperar.
As horas se passaram. De repente ela ouviu o trem chegando, e correu. Então ela entrou, e como o transporte estava muito cheio, a pobre garota ficou de cócoras num cantinho. Cinco minutos após o trem partir, passou o fiscal do transporte, e como a garota não tinha passagem e nem um tostão no bolso, ela foi jogada para fora do trem.
O lugar onde ela caiu era muito escuro, mas dava para enxergar um pouco. Andando devagarzinho, ela percebeu alguém a seguindo. Então ela aumentou os passos, e de repente alguém segurou o seu ombro. Ela gritou e:
-Calma, sou eu de novo, Penuti! – Disse o lobo.
Flora se acalmou e disse:
-Desgraçado, quase me fez enfartar. O que você quer?
O lobo então disse:
-Quero devorá-la!
Então Chapeuzinho deu um chute nas partes baixas dele e correu. E mais uma vez cansou e parou para respirar. Uma anciã surgiu ali e disse:
-Olá menina aparentemente sem sangue, o que faz sozinha e tão nervosa nesta floresta tão perigosa?
-Estou perdida, e para piorar, fugindo de um lobo-mau!
A velha, com uma maçã na mão, falou:
-Pegue esta maçã, você deve estar com fome!
A garota podia até ser um pouco ingênua, mas de otária não tinha nada, então pensando na possibilidade da maçã estar envenenada, ela disse:
-Ah obrigada, mas não posso aceitar. Eu gosto mesmo é de ameixa.
Ela então saiu correndo. Depois de tanto correr, ela parou numa relva e adormeceu.
No outro dia, pela manhã, ela levantou, despreguiçou e saiu. De longe ela viu um rio e foi tomar banho nele. Tirou toda a roupa e foi se refrescar. Nadava como uma sereia, de repente ela levou um susto ao ver um peixe falante. Ela saiu da água, pelada e vestiu-se rapidamente. O peixe então se aproximou e assoviou, depois disse:
- Não se assuste comigo, sou feio, mas não mordo. Eu sou um peixe, mas já fui um príncipe. Uma bruxa malvada me transformou neste animal porque terminei o nosso namoro. Mas basta um beijo de uma moça bonita na minha boca e volto a ser príncipe.
Chapeuzinho então falou:
- Ah, estão esquece. Eu não vou beijar um animal asqueroso como você.
O peixe humildemente insistiu para que ela o beijasse, até que acabou convencendo-a. Ela queria beijar na cabeça, mas ele disse que deveria ser na boca, e de língua. Então a menina, muito enojada, o beijou. Quando ela abriu os olhos, viu um rapaz de paletó e ele se apresentou:
-Meu nome é Xavier. Muito obrigado por ter quebrado o feitiço. De que forma posso agradecê-la?
-Estou perdida, à procura da casa da vovó.
-Ah, a vovó, aquela velha danada. Vou ajuda-la, conheço a amiga da vovó, vamos até lá.
E os dois foram. Xavier fez questão de levá-la no carrinho de mão.
Quando chegaram, ele chamou a velha:
- Dona Eustácia, sou eu, Xavier. Abra a porta.                   
De longe só se ouvia a velha resmungando:
- O que será que esse bando de desocupado tanto me chama. Não se pode ficar quieta.
O príncipe apresentou a garota para a mulher, e esta disse às gargalhadas:
- Essa aí eu já troquei as fraldas sujas de cocô, há, há, há...
Xavier se despediu de Flora e foi embora. A jovem senhora conversou com a menina sobre tudo, entediando-a.
Depois de muita conversa fiada, a anciã levou a garota à casa de sua avó. Depois de muito andar, as duas invadiram a casa pelos fundos e Eustácia disse:
-Cândida, sua velha coroca, cadê você?
As duas foram até a sala e se depararam com um padre, Dadá, vovó e algumas pessoas aos prantos. Chapeuzinho, assustada, perguntou:
-Quem morreu?
O padre ao vê-la explicou que todos pensaram que ela havia morrido.
Chapeuzinho perguntou:        
 - Como vocês fazem um velório sem o defunto?
Então sua mãe explicou:
-Todos sabem que chapeuzinho amarelo é muito malcriada e desobediente. Ela não para quieta no lugar, fala muita tolice, e eu já sabia que ela não ia para a casa de mamãe pelo atalho. Então fui atrás dela, mas quando fiquei sabendo que ela havia pegado o trem das vinte horas e de longe a vi sendo jogada, eu pensei que ela havia morrido, afinal, era meu sonho. Então nem precisei ver o corpo e resolvi comunicar sua morte.
Nessa mesma hora vovó ficou irritada com sua filha pelo que disse da neta e a espancou na presença de todos.
Depois deste dia, nunca mais chapeuzinho atreveu-se a desobedecer sua mãe, pois apesar do risco que correu, ainda passou uma semana sendo acompanhante de sua mãe no hospital, agredida pela vovó.

Fim

Autor: Jardson Pires
Versão Original: Chapeuzinho Vermelho