EX-MADAME 04

CAPÍTULO 04  
O SEQUESTRO
Era uma segunda-feira, pela manhã, quando Kátia saiu de sua mansão e foi à câmara para uma reunião parlamentar. Antes de entrar no carro, Fonseca, seu admirador, a chamou:
-Madama, espera!
Ela virou os olhos e perguntou:
-O que você quer, açougueiro? Estou apressada e não tenho tempo a perder com você!
Ele beijou a mão dela e disse:
-Tu tá linda, bem mais do que onti, e bem menos do que amanhã!
-Que cantada xexelenta. Eu sei que eu sou bonita e gostosa, e eu sei que você me olha e me quer. Ah, por sua culpa minha mão está babada por causa do beijo melequento que você deu! - Ela então limpou a mão com álcool.
-Meu sonho é te levar pá conhecer o meu paraíso! – Disse o homem.
-Sério? O que é o "seu paraíso", aquele seu quarto fedorento e sujo? Não, obrigada, dispenso!
Ela então ignorou o homem e entrou no carro. Ele, quanto mais fora levava, mais apaixonado ficava. Fonseca era um homem bonito, dono de uma mercearia, mas seu problema era a falta de estudo, que o tornava bobo, além de falar muito mal. Na câmara de vereadores, Kátia apresentou um projeto:
-Senhores vereadores e senhoras vereadoras, eu tenho um projeto maravilhoso para a nossa cidade!
Um dos vereadores falou:
-Desembucha perua!
Kátia revidou:
-Melhor ser perua do que ser uma galinha igual vossa mãe!
Todos riram e Kátia continuou:
-Meu projeto chama-se “BelaPobre” e tem como objetivo criar um SPA Popular em cada bairro para mulheres carentes e sobretudo feias. No SPA haverá diversos serviços estéticos como cabeleireiro, manicure, pedicure, depiladora, dermatologista, etc.
Mariah, uma vereadora, falou:
-Kátia, você não está exagerando. Acha isso necessário mesmo? O país não pode priorizar estética e esquecer saúde, educação e segurança.
-Querida Mariah, ficar bonita é necessário, eu sei disso porque sou linda. Desnecessário foi aquele carro importado que você deu pro seu filho mais velho bater num poste quando estava bêbado, sabe, aquele seu filho que está estudando medicina na melhor universidade particular de São Paulo.
-Meu amor, assuntos particulares, aqui não!
-E desde quando o dinheiro que você mama na prefeitura é assunto particular?
Após a reunião, antes de Kátia ir embora, Mariah a chamou:
-Kátia, querida, achei seu projeto interessante, porém, um pouco arriscado. Mas claro, vindo de uma cabecinha como a sua!
-Arriscado foi a propina que você recebeu no mês passado, e nem por isso eu estou me importando.
-Você está sempre armada, deveria ser mais dócil.
A socialite mostrou a língua para a vereadora e foi embora. Ao chegar à mansão, ela balançou o sino e Samantha foi até a patroa:
-Criada, massageie meus pés. Estão doendo por causa do salto.
-Eu? Desde quando sou massagista? - Perguntou Samantha.
-Desde quando eu te dou casa, comida e roupa lavada!
Samantha, embravecida, falou:
-Mas a casa sou eu quem limpo, a comida eu quem faço e a roupa eu quem lavo!
-Claro querida, se não fizesse nada disso estaria no olho da rua, ingrata!
No salão de beleza, Oliver terminou um corte de um senhor e disse:
-São apenas vinte!
-Vinte reais por um corte mal feito como esse? –Perguntou o homem.
-Não. É quinze pelo corte e cinco por ter catado os teus piolhos.
O homem, sem graça, pagou e saiu. Neste momento entrou outro homem e Oliver falou:
-Desculpe mas vou fechar para almoço e só volto a abrir as quatorze horas.
O homem sacou um revólver doo bolso e disse:
-Isso é um assalto!
Oliver ficou apreensivo, sorriu e disse:
-Por que não disse antes? Por favor sentem-se, fiquem à vontade enquanto eu preparo um cafezinho pra gente!
Neste momento o bandido o pegou pelo braço e disse:
-Vamo ali no carro!
-Perae, vai ser desse jeito mesmo, sem diálogo e sem apresentação?
Oliver foi colocado à força no carro e levado. Na mansão os sete celulares de Kátia tocavam e a vereadora já estava chateada:
-Mas que inferno! – Disse Kátia, balançando o sino.
Samantha entrou no quarto da mulher e perguntou:
-O que você quer?
-Que você dê um sumiço nesses celulares, pois estou prestes a enlouquecer com tanto pobre me ligando.
-E o que eles querem?
-Um deles é o seu Raimundinho me ligando pra me cobrar o que eu havia prometido durante a campanha.
-E o que você prometeu?
-Emprego pra ele, pra esposa dele, pros quatro filhos dele e até pro periquito dele. A outra é a dona Lindalva querendo os tijolos que eu prometi pra ela construir a casa dela. O outro é o vizinho, querendo reclamar por eu ter quebrado o retrovisor dele.
Oliver foi levado a um local longe da cidade. Ele estava com os olhos vendados. Um dos bandidos, apelidado de Furão, tirou o rapaz e o amarrou numa cadeira. Oliver implorou:
-Por favor, não me façam mal, dou o que quiserem!
-Nóis num quer nada teu não tá ligado? Nós sabe que tu mora com aquela baranga que é vereadora, firmeza?
-Ah entendi, vocês querem atraí-la até aqui e quando ela vir, vocês a capturam e me soltam, acertei? – Perguntou o rapaz, sorrindo.
-Não, frutinha. Nóis vai ligar pá ela e vamo pedir teu resgate.
Furão então ligou para Kátia, mas ela não atendeu. Duas horas depois ele conseguiu falar com ela:
-Alô! – Disse a mulher.
-É a vereadora Kátia? - Perguntou Furão.
-Depende de quem esteja aí do outro lado da linha!
-Eu sequestrei teu amigo frutinha e quero uma boa bufunfa pá libertar ele.
A mulher ficou apavorada e perguntou:
-Você sequestrou o Oliver? Meu grande amigo de longa data, meu tudo, meu bem, meu mal, meu...
-Isso mermo, tá ligada?
A mulher gargalhou e perguntou:
-Vocês não acham que eu vou cair no trote do sequestro, acham? Já sei, querem que eu deposite uma certa quantia na conta de vocês, correto?
-Não, é que...
-Vocês devem ser presidiários ligando da cadeia com o intuito de ganhar dinheiro às custas do susto e medo de uma pobre e frágil vereadora indefesa!
-Mas é que...
-Acham que sou tão burra a ponto de acreditar nessa mentira deslavada de gente desocupada?
-Cala a boca cadela!
O bandido então tirou a mordaça da boca de Oliver e este falou:
-Mademoiselle, me ajuda, eu fui sequestrado!
Kátia arregalou os olhos deu um grito e perguntou ao bandido:
-Quando vocês querem pelo resgate?
-Meio milhão de reais! – Disse Furão.
-O quê? Acham que estou roubando?
-E tu num é política?
-Mas sou honesta, ora bolas!
-Nós damos desconto, vamo tirar um real, de boa?
Kátia coçou a cabeça e falou:
-Poxa, ele nem vale tanto assim. Dou dez mil e não se fala mais nisso!
O chefão distanciou o celular e falou ao raptado:
-Essa tua amiga é baita miserável, disse que tu não vale meio milhão, ta ruim pá tu!
O celular do bandido descarregou e Oliver ofereceu o seu:
-Pegue o meu e ligue pra ela. Não aguento mais ficar nesse cativeiro imundo com dois nojentos. Ah, liguem a cobrar!
-É imundo mas é de família, tá ligado?
O celular de Kátia tocou e a mulher retornou a ligação, já que a ligação era a cobrar:
-Alô!
-Ei, somos nós de novo, firmeza?
-Percebi pelo linguajar. Decidiram se vão querer os dez mil?
-Não dona, a gente diminuiu dois reais, tá bom pá tu?
-Olha aqui seu imbecil, ordinário, bandidinho meia-boca, libera meu amigo por dez mil e pronto, se não for por esse valor, fiquem com ele.
Ela então encerrou a ligação. Furão ficou irado e deu uma tapa em Oliver. No dia seguinte, Kátia acordou e foi tomar café da manhã e quão grande foi o susto ao ver Fonseca comendo uma fatia de mamão:
-Criada, o que este ambulante está fazendo aqui? - Perguntou a socialite.
-Tava lhe esperano minha deusa. Vamo comer mamão? É bom pá liberar os intestino na hora de ir no banheiro! - Disse Fonseca.
-Não me dirija a palavra seu energúmeno! - disse Kátia, e ordenou:
- Samantha, tire este homem daqui, e depois me explicará por que o deixou entrar.
-Kaká, eu lhe amo! – Disse ele.
-E eu te odeio! - Disse ela.
Tu é cuma uma frôr pá eu!
-Eu não sou obrigada a ficar assistindo de camarote este homem assassinar a língua portuguesa, isso é um terrorismo aos meus ouvidos.
Kátia então foi comer na cozinha. No cativeiro, Oliver foi torturado:
-Ei boneca, acorda pra tomar banho! – Disse o chefão.
Quando Oliver abriu os olhos, viu uma garrafa com um líquido amarelo e perguntou:
-O que é isso?
-Xixi de cavalo, tá ligado? Vai ficar banhado, leke!
-Não, por favor, não faça isso!
O capanga deu um banho de xixi em Oliver, e este desmaiou. Fonseca foi atrás da de Kátia e na cozinha ele a agarrou e deu-lhe um beijo que durou oito segundos. Depois ela o empurrou e ele foi embora. Samantha riu da madame e falou:
-Gostou né!
-Gostei uma pinoia, terei que ir ao dentista fazer uma limpeza nos meus dentes. Eu não coloquei facetas de porcelana nos dentes para ter que molhá-los na saliva daquele jumento.
O celular de Kátia tocou e ela atendeu:
-Alô!
-Ei dona, e aí, vai soltar a bufunfa ou mando tua amiga pro inferno?
-Está certo, eu levarei o dinheiro. Onde quer que eu o encontre?
-Anote aí o endereço fia!
Kátia anotou o endereço e foi ao encontro do bandido. Quando chegou ao local ela olhou de um lado para outro, a fim de ver o sequestrador, de repente os pneus da frente do carro fizeram um barulho. Ela saiu e viu que haviam furados por arames escondidos na estrada. Ela havia caído numa armadilha.
Kátia ficou receosa e esperou o pior. De repente, Furão chegou, e apontando um revólver para ela, perguntou:
-Ei dona, cadê a grana?
-Está no porta-malas, dentro de uma maleta.
O bandido abriu a maleta e viu uma grande quantidade de dinheiro:
-Vou contar pra ver se tem meio milhão, beleza?
-Certo. Eu adoraria esperar, mas tenho hora marcada no SPA e não posso perder tempo aqui com você. Onde está o Oliver?
-Cala a boca e me ajuda. Quanto é cem mais cem?
Kátia virou os olhos. Samantha comentou com Fonseca sobre o perigo que a patroa iria correr e os dois foram atrás da mulher, seguindo o endereço que ela havia anotado.
No cativeiro, o outro bandido comia pastel de queijo enquanto pastorava Oliver. Este pensou num plano de sair daquela situação e lembrou que tinha alergia à lactose e fez um plano:
-Ei bonitão, esse pastel é de queijo?
-É sim princesa, por quê?
-Você pode me dar um pedaço? A mademoiselle está chegando com a grana de vocês, e poxa, estou com muita fome!
O sequestrador então deu a metade do pastel ao refém e este comeu. Minutos depois Oliver sentiu uma forte dor de barriga e pediu:
-Ei bonitão, preciso ir ao banheiro. Aquele pastel me fez mal.
O bandido então levou o rapaz ao banheiro e ficou à sua espera. Kátia permaneceu aguardando o chefão contar o dinheiro. Ela então publicou no facebook: "SOCORRO. FUI SEQUESTRADA. ESTOU NA RUA DA AMARGURA, BAIRRO DA CABAÇA, PRÓXIMO O ‘BAR FUTUM DA VOVÓ’. ME SALVEM, RECOMPENSAREI BEM!".
Oliver demorou muito no banheiro e o bandido estranhou e perguntou:
-E aí, terminou?
-Ainda não, bonitão!
Desconfiado, o bandido abriu a porta do banheiro, quando de repente voou merda pra todo lado, inclusive ele ficou todo melado. Oliver deu um chute nas partes baixas do bandido e sai correndo.
O chefão continuou a contar o dinheiro:
-Vinte mil e cem, vinte mil e duzentos, vinte mil e trezentos...
-Meu caro, tenho o mês todinho pra esperar você terminar de contar isso!
-Ei dona, tu fala demais, perdi as conta!
-Ah não, eu não sou obrigada a passar por isso não. Vou sair daqui agora!
O bandido, que estava sentado, levantou, atirou para cima e disse:
-Tu não vai sair daqui viva não, dona!
Kátia cruzou os braços e fez cara feia. No caminho para o cativeiro, Fonseca lamentou a situação que a amada estava passando:
-Tadinha da minha amora, passano por uma aprovação. Mas ela vai sair dessa por que eu to ino salvá ela. Aí ela vai ficar agradicida e vai aceitar meu pedido de casamento. Ai nós vamo ter muitos filho e vamo viver feliz pra sempres.
-Me poupe Fonseca desses planos idiotas. Espero chegar lá e encontrar só o cadáver dela.
-Vira essa boca pá lá coisa ruim! Vade-retro satanás!
-Vade-retro tu infeliz, e cuidado com essa estrada esburacada.
-Ali está a minha amora! – Ele a viu de longe e se animou.
-Droga, ela está viva! - Lamentou Samantha.
Oliver saiu do cativeiro e abraçou a socialite:
-Mademoiselle, que bom que veio me salvar!
-Pois é né Oliver, mas já estou arrependida.
Furão apontou a arma para Oliver e falou:
-Vou contar esse dinheiro depois. Agora e vou dar um fim em vocês e depois vou fugir.
De repente todos sentiram mal cheiro no local e Kátia perguntou:
-Oliver, esse cheiro de bosta está vindo de você!
-Perdão minha rainha, foi um estratégia de fuga!
Furão novamente apontou a arma para o rapaz, mas antes de atirar, Fonseca atirou no nele com uma espingarda. Kátia foi até Fonseca e Samantha e disse:
-Estrupícios, deveriam ter chegando mais cedo pra salvar minha vida!
-Kaká eu tava com muito do medo de perdê tu!
-Devo admitir, você foi um herói, comerciantezinho!
-Mereço um beijo?
Kátia então disse:
-Aí já está querendo demais!
A polícia chegou ao local e levou os bandidos para o hospital. Ao chegarem à mansão, Kátia ordenou:
-Criada, prepare minha banheira com sais de banho. Preciso relaxar depois de um dia tenso como o de hoje.
-Se quiser, te acumpanho pá esfegrar tuas costa! – Disse Fonseca.
-Obrigada, mas eu tenho duas mãos e uma criada!
Oliver falou:
-Fonseca, se quiser, eu deixo você esfregar minhas costas!
-Ah, quero não, gosto não.
Samantha estava no banheiro da patroa, quando passou por sua cabeça colocar ácido muriático na banheira dela, mas desistiu de fazer isso e colocou os sais de banho. Logo após, ela foi ao quarto de Oliver e disse:
-Oliver, eu adoraria que a Kátia tivesse sido sequestrada, assim, mofaria no cativeiro!
-Credo salamandra, quanta maldade no seu coração, eu hein!
-Eu não gosto dela, e isso não é novidade!
A moça saiu. Oliver ficou perplexo. No dia seguinte, a polícia federal bateu na porta da madame. Samantha a chamou e, após uma hora e meia se arrumando, ela desceu e:
-Olá senhor, o que deseja de minha pessoa? - perguntou ela ao delegado.
-Dona Kátia Lamartine, a senhora está presa, acusada distribuir dinheiro falso e de corrupção.
Ela logo lembrou das notas falsas que deu aos eleitores na época da campanha, o mesmo dinheiro que ela havia levado para pagar o resgate do amigo. Kátia se recuso a ir e foi algemada, e olhando para Oliver, Samantha e Fonseca, ela disse:
-Eu voltarei, amados!
(...)

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